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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Palavra Indireta

Atiro-me, e assim, me esmago.
Num retrocesso casual, não é o fim.
É palavra indireta. Poesia lambida.

Um salto, sobre si mesmo.
De quem engana o ego, pra fugir com o inconsciente.
VOZ, murmúrio gradativo, até tomar os corpos.
V i b r a n t e s.

Sem nenhuma verdade, sem nenhum compromisso.
Um passo e está
abaixo
do
SOM.
E se não pode ouvir?
Todas as questões indolentes, adormecem.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Domingo

Sem por que nem para que, primitivo, sensorial instintivo, deixa eu me traduzir numa enxurrada de sinestesia e hormônios, sinapse, impulso elétrico, pára de querer racionalizar isso, pára de querer fugir de ser bicho, deixa eu girar girar até a visão turvar como fazia antes, deixa eu comer morango com chocolate até enjoar, deixa eu me embriagar em tudo isso pq é só o que importa é a perda do raciocínio e o prazer, pq n importa o que te entorpece, a ressaca sempre vem, eu n quero explicar eu não quero medir, me deixa louca na minha inconsequência, me deixa sentir, deixa eu me balançar nesse ritmo, deixa os pensamentos enrolarem tua língua e me dá teu beijo com gosto de saudade , pode chamar de infundado, de inconsequente, irracional, infantil, mas faz cócegas, me faz rir e chorar e sentir, e arrepiar arder e suar... gosto muito...

Boemia

Plantava maconha com fins medicinais quando conheci a Boemia. Ela se apresentou já de maneira vulgar, me oferecendo um pouco de bebida de cevada. No calor daquela tarde, o estalar labial da espuma de cevada aflorou meu ânimo. Tirei a blusa. Tirei o corpo fora do trabalho. E fui viver. Ela era alta, magra, loira, ativa, sensual, bem apessoada. E me seduziu. Me arrastou paras as mesas espelhadas da cerveja que escorre por descuido e molha os cigarros, os isqueiros, as contas. Me fez acender cigarros e tragar todas as impurezas, para que enfim me libertasse das verdadeiras impurezas que estavam encrostadas no meu âmago. Eram agourentas. Dei um sorriso amarelo e me viciei. V Í C I O. Minha namorada, Boemia não te largo mais.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

frequência


Me inspirei,
despi, servi, vendi, rendi..
comprei.

Paguei caro.
E sabe o que tem?

É cheiros.
gostosos,
gosmosos, plastosos,
gozados.

Esse cheiro não me sai.
Engoli para poder vomita-lo, cheiro fresco.
Cheiro molhado fruto de atos reificados,
verdadeiros hipócritas devotos do prazer
e dor conseguinte,
expreminte.

Icterícia antes fosse
Pelo menos teria cor.
Amarela.

“Amarelo das doenças, das remelas, dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos... Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente."

Antes fosse doença certeira.
Morrera depois de febre perturbada,
causa de lírios e suores e urros
tapas.

Rocei até avermelhar para ver se saia o último gole que ainda se não esvaia
E não.
Enfiei até o final para ver se saía,
E saiu tudo, saiu a Bile, só não saiu o cheiro.
Mentira.

O cheiro fica, persegue,
morte em vida que zumbi na orelha
língua fina e pegajosa que se emaranha e amontoa vulgarmente.

É mais que nojo.
Dá ojerizas.
Faltam-lhe os calafrios.

entrei para poder ver sair,
soa dubiamente ridículo. E agora?
A única volta vejo essas seqüelas e marcas e cheiros que aqui habitam.
Voltas curvas, tensas, tesas, marcha sem letra.
Pobre.
Desidratada.

Saiam de mim, se esmiúcem por aí,
fodam-se.

Fodam-se.
Merda. É sempre volta ao Congresso.

Mas olhe!

Como é bom!
Sobrou-me um picolé e alguns chicles de bola.


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Oi, sou novata.

Prazer,

luiza.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Capítulo I




Balcões paredes e mesas me chamam, latejam as ânsias primiticas do meu ser sórdido, é o instinto que me põe de joelhos, pulmões resfoleantes, atrito contato pele e suor, e pulsa, pulsa no gozo animalesco irracional do grito emudecido.
A violência dos botões de camisa arrancados e livros no chão, sapatos jogados no canto da sala e taça de vinho abandonada à meia-luz, palavras embriagadas em blues.
Um corpo transborda seus limites, invade outro espaço, aquece e funde num puxão de cabelos, impropérios promíscuos gritados em uivos de êxtase libertino.
Movimentos libidinosos consomem a racionalidade metálica e libertam o orgânico intrínseco urrante de prazer.
O estado natural e febril que expõe o âmago profano no ato selvagem.
O toque corrói a película e escorre o biológico quer possuir o corpo que percorre, quer derretê-lo, inundá-lo e inebriá-lo.
Os olhos vidrados vibrantes reviram-se nas órbitas, as cortas arqueiam os músculos contraem e da boca entreaberta escapa o gemido delirante.
Pés entrelaçados ao amanhecer. Corpos despidos da vergonha cobertos pelos lençóis amassados. Molhados. Fartos. Sedentos por mais.

Entre escombros


Se você me convidar, eu prometo que vou. Eu vou sentar com você, falarei qualquer bobagem pra te distrair. Antes que você perceba, eu te pego num salto, numa vírgula. E assim, eu vou bebendo das suas loucuras engasgadas. Vendo se desfazer em discursos analíticos e olhares furtivos. Vou corroendo suas verdades, expondo a sua nudez. Invado o que omite, te vejo contorcer, adequar-se. Num piscar eu arranco a sua máscara, toma mais um gole, e você está ofegante. Quer fluir, chorar, tomar-me. Quer falar como uma criança, nunca esteve tão só. Estigmatizou sensações, racionalizando. As impressões te machucaram, o amor secou. Descobriu que tende ao tédio dos previsíveis. Fechou as janelas, calou-se. Achou seus delírios num corpo, escondeu-se. Encarcerou-se em escombros, palavras metódicas, embalagens, tradições? Um Eu “nasceu”, gozou. Teve uma breve visão liberdade, tomada numa aventura. Fui eu que te roubei a solidão. Nunca bebeu deste prazer, nunca provou da metonímia. Fartou-se! Se me infiltro no teu eu-avesso é porque me enlouquece. Amanheceu e não estava lá.

domingo, 2 de novembro de 2008

Anima Sola


Ali, aguardando para ser apontada julgada e condenada purgando em dúvida seus pecados ardendo mas nunca consumida, a alma solitária, mesmo em meio a multidão, vaga pela cidade que pulsa caoticamente em cada um de seus pavimentos cinzentos, vagueia com suas botas de solas esburacadas de tanto seguir rumo a lugar nenhum, passa pela juventude que entoa seus hinos monotônicos da geração dessa semana, com seus cabelos iguais e celulares de última geração. Vagueia e vê as pessoas que passam e a abandonam e se abandonam aos poucos em parcelas do seu cartão de crédito de limite estourado pelos vestidos de festa, da festa que acabou com a cinderella de ideais estuprados maquiagem borrada e pés doloridos em sapatos que não eram de cristal, deixam cacos para trás para se tornar um, para caber na forma, espremem-se torcem-se para entrar no molde de metal para não lidar com os cacos de si, cacos que cortam e deixam escapar o sangue rubro , talvez não sangrem, afinal sangrar é tão demodê. Passam apressados e apáticos à brisa com cheiro de mar a beija no rosto e bagunça os cabelos, não sentem não vêem são partículas que dão à cidade maquinal e cinza a impressão de pulsar mas não pulsam mais, os velhos não têm mais olhos sábios, os jovens não tem os rostos rosados e cabelo desfeito pelo deliberado desleixo os adultos não são mais heróis e talvez nem às crianças seja permitida a inocência. Tudo pulsa mas nenhum coração bate, eh um pistão metálico que impulsiona pra frente, e quem tem tempo para pulsar? E no desespero desse mundo monocromático grita alto até a garganta sangrar e os pulmões estourarem violenta também o paraíso sensorial do seu ego sem aguentar a solidão que lá havia, talvez o som do grito da dor irrompesse as barreiras do mundo bom que só ela conhecia. A julgam como louca, pecadora profana, sem saber que cometem todos os dias o crime de tentar ser normal.